Cauã Reymond faz trinta anos em ótima forma
O ator festeja três décadas de vida mais seguro e feliz com o sucesso, mas diz: "Tenho medo de ficar careca".

Cauã Reymond é um trintão com cara de 20 e poucos anos. Começou em “Malhação”, em 2002, e hoje acumula em seu currículo muitas novelas. Entre elas, três do horário nobre da Globo: “Belíssima”, “A Favorita” e a atual, “Passione”, onde vive o ciclista Danilo.
Na telona, o moço também tem história para contar. Fez “Ódiquê?”, “Falsa Loura” e “Se Nada Mais der Certo”, entre outros. Até o ano que vem, o moreno ainda vai dar as caras nos longas “Meu País”, de André Ristum, com Rodrigo Santoro, “Não se Pode Viver Sem Amor”, de Jorge Durán, com Angelo Antônio, “Reis e Ratos”, de Mauro Lima, com Selton Mello e Rodrigo Santoro, e “Estamos Juntos”, de Toni Venturi, com Leandra Leal.
Além de bom profissional, ele tem um sorriso arrasa-quarteirão. Um sorriso que quase nunca sai do rosto. Todo simpático, Cauã abriu uma brecha em sua agenda para um bate-papo sobre suas recém-completas três décadas de vida. E ele não titubeia ao passar tudo a limpo. O ator fala sem medo sobre a infância conturbada, o sucesso profissional e pessoal e mostra que a idade só lhe tem feito bem.
DIÁRIO: Como é ter 30 anos?
CAUÃ REYMOND: É uma troca de casca. Humor flutuando e muitas coisas mudando, mas parece que elas começaram a fazer
mais sentido. Estou confortável com minha pele nova. O curioso é que tenho 30 anos, mas ninguém tem me dado papel de trintão. É bom, mas tomara que eu não fique com cara de garoto até os 50, fazendo o tiozinho garotão que joga futevôlei (risos).
DIÁRIO: Chegou a ter alguma crise pré 30?
CAUÃ REYMOND: A única coisa é que começo a sentir dores que não sentia. Se faço uma corrida, demoro mais para me recuperar. Comecei a fazer RPG e estou sentindo uma mudança de postura. Tenho hiperlordose e o tratamento tem me ajudado bastante. Parei de sentir dor na lombar, comecei a me sentar com uma postura melhor.
DIÁRIO: Os interesses mudaram com a idade?
CAUÃ REYMOND: Com 30 anos, se tem mais discernimento do que se quer. Graças a Deus, meus dois últimos anos foram muito bons, no profissional e no pessoal. Estou mais seguro. Quando se tem 20, você ainda quer se provar. Tem coisas que, aos 30, você já sabe que dá conta.
DIÁRIO: Quando tinha 15 anos, imaginava como estaria com 30?
CAUÃ REYMOND: Não. Engraçado, porque quando você chega aos 20 acha que os 30 nunca vão chegar. Fui me tocar disso quando fiz 29. Pensei: “Pô, ano que vem vou fazer 30”. Mas está tudo bem.
DIÁRIO: Quando se olha no espelho, gosta do que vê? O que mais lhe agrada?
CAUÃ REYMOND: Gosto, estou mais tranquilo comigo. E me agrada o fato de eu ainda ter cabelo. Tem uma galera que chega aos 30 e não tem mais. Claro que tenho medo de ficar careca! Outro dia, uma pessoa que cortou meu cabelo disse que não corro o risco. Fiquei tão feliz! Aos 20, não pensava nisso, mas aos 30 eu já penso.
DIÁRIO: Quais são seu maior defeito e sua maior qualidade?
CAUÃ REYMOND: Meu mau humor de manhã. Odeio acordar cedo! Mas defeito mesmo é ser cabeça-dura. Quando acho que alguma coisa vai dar certo, vou até o fim, até quebrar a cara. A qualidade é ser determinado. Isso ajuda muito, mas pode atrapalhar.
Quando se é determinado, acaba-se sendo um pouco cabeça-dura. Acho que meu maior defeito é minha maior qualidade
DIÁRIO: É vaidoso?
CAUÃ REYMOND: Com minha saúde. Não gosto de dormir menos de oito horas porque fico mal-humorado. E sou preocupado com o que como. Gosto de estar bem vestido quando vou a algum lugar, faz parte também da minha profissão. Mas, no dia a dia, não ligo para isso. Prefiro meu cabelo curto, porque pego onda e o mar o detona. Não tenho paciência de cuidar dele. A verdade é que se você cuida da saúde não precisa de outros artifícios para estar bem.
DIÁRIO: Creminho antirrugas nem pensar?
CAUÃ REYMOND: Não! Estou querendo envelhecer para fazer outros personagens, se usar isso estou ferrado (risos)! Uso muito protetor solar, tenho vários. Fui me tornando um profissional no assunto. Hidratante, só uso quando a pele está esquisita. Aí, pego um da Grazi.
DIÁRIO: Do que você se orgulha de ter feito nessas três décadas?
CAUÃ REYMOND: De não ter feito certas coisas, como usar drogas. E de ter ficado longe da noite, de pessoas que podiam me desvirtuar. Tem uma frase assim: “O homem é muito mais as escolhas que deixa de fazer do que as que faz”. Eu me identifico com isso, porque teve muita coisa que podia ter feito e não fiz. Vi vários colegas, infelizmente, que escolheram outro caminho. Não vou dizer que era melhor ou pior, só não era o que eu queria.
DIÁRIO: Esse discernimento você deve à criação que teve?
CAUÃ REYMOND: Fui um garoto que mudou muito de casa, fui para muitos lugares. Se eu disser que tive aquela infância perfeita, papai, mamãe, é mentira. Acho que devo meu discernimento à perspicácia de prestar atenção em tudo, ao desejo de mudar, de construir algo mais estável, e aos amigos. Além da análise, que me ajudou muito. Comecei a fazer terapia
aos 14 anos. Parei três anos para modelar, foi quando viajei para fora do país. Mas quando retornei ao Brasil voltei a fazer terapia.
DIÁRIO: Por que análise aos 14 anos?
CAUÃ REYMOND: Minha infância foi conturbada. Morei com minha mãe, depois com meu pai, voltei a morar com minha mãe, depois com meu pai de novo. E saí da casa dele com 17 anos. A análise ajuda você a descobrir quem você é, a colocar as coisas em seus lugares. Às vezes, precisamos conversar com alguém, desabafar, perguntar uma opinião.
DIÁRIO: Qual foi a pessoa que mais influenciou na sua vida?
CAUÃ REYMOND: Meu avô. Meu pai morava longe e a figura paterna em muitos momentos foi preenchida pelo meu avô. E ele, como eu, saiu de casa cedo, também aos 17 anos. Gostava de viajar para um sítio que ele tinha em Araras.
DIÁRIO: Quem são seus ídolos?
CAUÃ REYMOND: Rickson Grace é meu ídolo. Eu o adoro, acho que pelo fato de eu ter sido lutador (ele já fez jiu-jítsu). Ele tem uma forma de encarar a luta com ética, e eu o sinto como um samurai. No surfe, gosto do Kelly Slater. Como ator, gosto de Marlon Brando, Sean Penn, Selton Mello, Wagner Moura, Murilo Benício. Mas o ídolo para mim é em relação a um assunto, não o tomo como um cara onipresente e onipotente. E não quer dizer que concorde com tudo o que acontece na vida da pessoa, porque ninguém é perfeito.
DIÁRIO: Você começou na TV em “Malhação”, há oito anos, fazendo o Maumau. Naquela época, o que esperava da vida?
CAUÃ REYMOND: Muito menos do que acho que conquistei. Minha expectativa era menor, não achava que estaria trabalhando com tanta gente boa, fazendo cinema, que é um sonho, entrando na terceira novela das oito. Quando vejo aonde cheguei, o sal-
do é muito positivo.
DIÁRIO: Naquela época, já queria fazer cinema?
CAUÃ REYMOND: Sim. Minha primeira oportunidade foi o “Odiquê?”. O cinema foi um lugar onde me senti livre, porque estava travado em “Malhação”. Não entendia onde estava a câmera, tinha que andar nas marcas... E o “Odiquê?” foi filmado de uma forma naturalista. Era um pouco como tinha aprendido a atuar quando estava estudando. Tanto que considero meu rendimento no filme muito superior ao que vinha fazendo em “Malhação”.
DIÁRIO: Pensou, alguma vez, em desistir da carreira?
CAUÃ REYMOND: Nunca. Se bem que, há quatro anos, quando passei um mês de férias no Havaí, pensei seriamente em não voltar. Mas, nos últimos dez dias da viagem, comecei a sentir uma saudade do trabalho...
DIÁRIO: Já se sentiu deslumbrado com a fama?
CAUÃ REYMOND: Sim, nos primeiros quatro meses de carreira... E era bom pra burro aquele deslumbramento (risos)! Tive momentos ruins, mas tive momentos bons de deslumbre. Faz parte. Se você pula etapas da vida, não amadurece.
DIÁRIO: Você está para lançar o filme “Estamos Juntos”, de Toni Venturi, em que dá um beijo gay. Se sente mais maduro para fazer um personagem assim?
CAUÃ REYMOND: Já, mas faço uma participação. Além de me sentir mais maduro, queria arriscar. Não tive problema nenhum com o beijo. Sou resolvido sexualmente, o argentino Nazareno Casero, que beijei, também. A gente só ria, nos divertimos fazendo, foi bom... Não o beijo, mas o filme, tá? (risos). Beijar homem é meio estranho, não vou mentir. Tem barba, não é legal...
DIÁRIO: Pensa em seguir carreira internacional?
CAUÃ REYMOND: Já recebi convites, mas não me achei maduro o suficiente, tanto artistica quanto pessoalmente para ir. E ainda acho que não estou. Pode ser que o bonde passe, mas por enquanto o meu bonde é esse aqui, “Passione”.
DIÁRIO: Você é o sonho de consumo de muitas mulheres. O que sente ao chegar aos 30 com esta constatação?
CAUÃ REYMOND: Eu questiono isso, mas vamos lá (risos)... Fico lisonjeado. Ficava mais, no início da carreira, porque agora sei que a pessoa tem uma visão minha por causa do trabalho. De repente, se ela me conhecer, nem vai gostar muito. Na verdade, fico lisonjeado mesmo quando alguém me conhece. Mas, neste momento, não tem ninguém para me conhecer, porque conheci a Grazi, estou com ela e vou ficar.
DIÁRIO: Como você é dentro de casa?
CAUÃ REYMOND: Não gosto de fazer nada, sou preguiçoso! Ajudo a Grazi, mas quando não estou trabalhando tenho vontade de não fazer muita coisa. Gosto de andar com os cachorros e brincar com os gatinhos, não vou mentir. Mas não curto bagunça. No
fim de semana, faço minha cama, não deixo meu quarto uma zona.
DIÁRIO: O que ainda falta para você realizar?
CAUÃ REYMOND: Muita coisa. Há personagens que quero viver, diretores e autores com quem quero trabalhar, estou com vontade de fazer alguma coisa de época de novo, ter as férias que não tirei... E, no pessoal, ter filho. Sem aquele papo “Quando é que vocês vão ter filho? Vão casar? Já estão casados?”. Filho é uma realização.
DIÁRIO: Já imaginou que tipo de pai será?
CAUÃ REYMOND: Não sei, mas que eu vou ser, vou. Quando você começa a pensar nessa coisa de ser pai, fica pensando que gostaria que seu filho se orgulhasse de você. Acho que estou batalhando isso antes de ter o filho.
DIÁRIO: Família é muito importante para você, não é?
CAUÃ REYMOND: Muito. Acho que as família hoje em dia estão tendo tantos problemas por falta de união. Nesse processo de querer ser muito bom no que faz, você fica, de certa forma, solitário. E isso é perigoso.
DIÁRIO: Tem medo de envelhecer?
CAUÃ REYMOND: Ah, um pouquinho. Mas, provavelmente, quando você conversar comigo mais para frente, um pouco mais velho, eu vou falar que está tudo bem. Porque aos 15 anos eu tinha medo de chegar (uma rápida pausa)... Não, se bem que queria ter
30 anos aos 15. Pensava que 30 era uma idade boa, não está lá nem cá, está no meio (risos).
DIÁRIO: Como se vê daqui a 30 anos?
CAUÃ REYMOND: Mais realizado, mais pacífico, mas sem perder a vivacidade. A idade tem que chegar, não pode chamála. Conheço gente que, com 50 anos, está muito melhor do que qualquer garoto. E tem muita mulher aí que está melhor que muita menina. Há meninas de 13 anos que, poxa, se cuidam tão mal...
DIÁRIO: Um Cauã de 30 ou dois de 15?
CAUÃ REYMOND: O de 30! Aos 15, era um menininho. Na época, você começa a se achar homem, ficar valente. É bom ser menos valente. Não me troco. É bom envelhecer no quesito sabedoria, ganhar experiência, ficar menos angustiado.
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